Destino de um Guerreiro

   Hoje é dia 6 de junho de 1944, 6 horas da manhã, eu e meu pelotão nos direcionamos à solo estrangeiro, em uma operação muito arriscada, chamado Operação Overload, elaborada pelo general Dwight David. É de fato uma operação muito perigosa, mas se obtivermos sucesso, sairemos vitoriosos contra o Eixo e, por isso, vale a pena arriscar nossas vidas. Pelo menos assim pensava os colegas que me acompanhava nessa empreitada, e quando digo “nessa”, são os que estava comigo no LCVP, o nome dos barcos em que estão sendo transportados mais de 155 mil soldados nesse dia, pela costa da Normandia, na França.
O calor dos nossos corpos aumentava mais a cada metro em que nos aproximávamos do campo de batalha, o nosso sangue fervia com a intensidade. Porém, infelizmente muitos barcos foram atingidos por morteiros inimigos e muitos morreram ali mesmo, no mar, afogados ou destroçados pela força do tiro. Enfim chegamos à praia, todos se preparavam para a missão que estava por vir.
–Todos preparados? – pergunto, com um grito forte.
–Sim senhor! – responde o pelotão.
–Tenham em mente que está missão é algo que vai mudar o futuro de muitos, vocês são grandes heróis, cada um de vocês que aqui se encontram. Caso alguém se vá hoje, ou até mesmo eu siga para a outra vida, tenho a dizer que foi um prazer servir ao lado de cada um de vocês, meus irmãos de guerra. –Falei inspirado ao som da batalha.
A grande tampa que fechava a frente do LCVP se abriu, tiros ecoavam por todos os cantos do campo. Todos correram para as estacas de ferro que tinham sido colocadas na praia, enquanto ataques de morteiros jogavam ao alto os finos grãos de areia da praia de Utah. Todos correram com um brado de guerra, com a coragem em seus peitos, a honra, e a vontade de proteger a futura geração que estava por vir, dos nossos inimigos, o Eixo, mas em especial, o nazismo, não temendo nem perder a própria vida em defesa de seu povo, de seus ideais. Esses meus companheiros eram verdadeiros guerreiros.
Saio ao ataque, lado a lado de meus companheiros de guerra, a farda toda molhada, os passos pesados, com o fuzil em mãos. Escondo-me na primeira estaca de ferro à minha frente, não ficava nem a 5 metros de onde havíamos desembarcado.
–Sargento, qual é o primeiro pas… – BUMM!!!
Um morteiro acerta em cheio o Sd. Lesley antes que pudesse terminar a frase, ele estava apenas a alguns metros de distância de mim, lá se ia meu primeiro irmão naquela batalha. Seus pedaços voaram ao alto, seus miolos estavam esparramados sobre a areia, enquanto eu retirava um pouco que havia voado em minha cara, meus ouvidos zuniam, o sonido do tiro havia estraçalhado meus tímpanos. Mas eu não poderia parar por ali, tinha que mover e seguir em frente, não podia deixar meu pelotão, não podia esquecer o objetivo que me fora imposto.
–Senhor, qual será o próximo movimento? – indagou o Sd. Charles se aproximando de mim, enquanto o som dos tiros de todo o tipo de arma cortavam os breves intervalos de silêncio.
–Vamos levar todos os homens para o final da praia, naquela trincheira junto com o pelotão do Cpt. John Miller – respondi apontando para a trincheira, e falando em voz alta, na tentativa de me sobressair sobre os tiros dos morteiros e das potentes metralhadores MG 42 dos nazistas.
Em um segundo, Charles correu em direção a cada um dos nossos irmãos, cada soldado do pelotão que eu comandava, avisando-os a direção que deviam seguir.
Eu não costumava acreditar em nada, eu não conseguia compreender a fé que as pessoas tinham, mas naquele momento, seria quase impossível sair daquela situação vivo, então pensei que seria uma ótima hora para tentar manifestar ao menos um pouco de fé em algo, isto é, se eu tivesse fé. Então me lembrei das histórias que meu avô, Thorsteinn Beinteinsson me contava quando eu era um garoto, de um lugar para onde todos os guerreiros que lutassem bravamente em guerras, iriam quando morressem. Lembro-me que ele afirmava que o lugar realmente existia, e que seu sonho sempre foi se reunir com os seus ancestrais neste local, onde iria ter festa a noite e lutas durante o dia, mas ninguém iria mais chorar, passar fome e nem tristeza, só haveria espaço para comemoração, piadas e risadas, juntamente com o grande e poderoso Deus, pai de todos os outros Deuses, Óðinn. Inclusive, lembro-me perfeitamente de seu rosto quando falava desse Deus, seus olhos brilhavam e sua alma se enchia de júbilo, mas também disse que infelizmente não iria para tal lugar, porque provavelmente iria morrer de velhice, mas me dizia sorrindo, que não iria para um lugar ruim de qualquer forma. Ele se despedia a noite, nas vezes em que eu ia dormir em sua casa, sempre dizendo: “Boa noite criança, que um dia você possa ter o privilégio de entrar em Valhalla!”. E eu, na inocência de uma criança, ficava tentando imaginar como seria tal lugar de tanta glória, afinal, era meu sonho, desde criança ser um grande guerreiro, lutar contra o mal, salvar o mais fraco, ser um homem digno e honrado.
Decidi que não custava tentar, não custava dizer algumas palavras, em seguida, olhei para o céu, e foi aí que tudo mudou quando eu proferi as seguintes palavras…
–Óðinn, Deus do qual meu avô acreditava, do qual a minha descendência cria. Se você de fato existe e se hoje for o meu dia, toma o meu espírito para este glorioso lugar que meu avô tanto falava, deixe-me ao menos ter o privilégio de viver com meus os ancestrais… – terminei olhando para baixo, pensativo, mas antes que eu pudesse escapar um pouco da realidade, os tiros, os gritos e todo aquele barulho me trouxeram de volta para o mundo real.                                                                                                                 Meu pelotão havia se movido ao local estratégico. Recobrei a consciência e corri para a pilha de estacas de ferro, que estava 15 metros à minha frente. Tiros passavam raspando ao lado dos meus ouvidos, eu conseguia sentir e escutar a pressão do ar que se cortava. Alcancei a proteção, as balas ricocheteavam cada vez que acertavam aquelas barras de ferro e a cada metro que eu avançava, mais difícil ia ficando, infelizmente já haviam muitos corpos jogados na praia, muitos soldados já haviam ido ao seio da morte por amor à pátria, e eu não podia desistir, por outro lado, todos que sobraram do meu pelotão haviam conseguido chegar à trincheira que eu havia dito, menos Lesley, que morrera vítima de um ataque de morteiro, companheiro do qual sempre estará em minha memória…
Olhei para o meu pelotão na trincheira, estavam acenando com a mão, me chamando até lá, e eu não podia deixá-los esperando mais, precisávamos completar a missão, eu precisava ir, eu tinha que me mover! Todos eles com suas atenções voltadas para mim, mas sem se desprender do campo de batalha, estavam ansiosos me esperando para seguir com as instruções. A trincheira ficava 50 metros à frente, seriam os 50 metros mais longos da minha vida. Em um sopro de adrenalina, corri, focando na trincheira e nos meus colegas que nela estavam, em um segundo, parecia que eu havia tropeçado, eu cai, meu peito doía, como se eu tivesse levado uma porrada de um brutamontes. Fechei os olhos por um segundo, ainda no chão, levantei cambaleando, percebi que tudo ficou muito quieto subitamente, os tiros haviam cessado e só o silencio pairava sobre a praia, que agora estava deserta. Percebi também que a dor havia sumido completamente, fiquei assustado, coloquei a mão em meu peito, não havia nada, nada! Procurei em volta, olhando para todos os lados, somente a praia vazia, sem nada, nem ninguém, meus irmãos de guerra haviam desaparecido, eu estava só, naquele lugar… Minutos depois, comecei a andar procurando de alguma forma, escapar daquela situação. E então foi quando a silhueta de uma velha surgiu, ela estava toda coberta de sangue, fiquei parado, intrigado, não sabia o que fazer, então sem pensar, gritei à velha que estava 30 metros à minha frente:                                                                 –Quem é você? O que a senhora faz aqui? – A velha apenas continuou andando, sem pestanejar, vindo em minha direção. Chegando mais perto, ela então se manifestou.
–Eu sou aquela que colhe, aquela que guarda e leva os escolhidos, eu sou a morte, eu sou uma valquíria! – Falou a velha, que aparentava ter mais de 100 anos.
–Uma o quê? –perguntei confuso com tudo o que estava acontecendo.
–Eu vim lhe buscar, Einar Beinteinsson! – exclamou, direta e fria em seus sentimentos.
–Ei! Como sabe o meu nome?
Ela não me respondeu, e com um movimento rápido, apareceu em minha frente e bateu a palma de sua mão em minha testa. Em definitivamente um piscar de olhos, eu apareci em outro lugar.                                                     Recobrei os sentidos e olhei em volta, eu estava em um grande salão, com escudos no teto, iguais aos que meu avô tinha em sua casa. O salão deveria ter mais de 200 metros de altura, o teto era como se fosse um grande barco posto de ponta cabeça, o lugar era de madeira rústica com muitos detalhes feitos em ouro, havia várias portas ao longo do lugar, eu tinha certeza de que deveriam ter mais de 100 portas de cada lado das paredes ao longo do amplo corredor a minha frente. Portas de mais de 50 metros de altura, eram todas de ouro, e nelas estava esculpido desenhos e símbolos, símbolos esses que meu avô me mostrara quando eu era apenas uma criança, ele as chamava de “runas”. Logo atrás de mim havia uma porta dupla que se destacava, este grande portão parecia ser a entrada do início do salão, era maior do que todas e também mais bela, deveria ter uns 100 metros de altura, nela também continha runas gravadas. O lugar parecia ser alguma construção medieval, mas a sua beleza era admirável. Havia também uma enorme mesa, seu comprimento parecia ter muitas milhas de distância, assim como o vasto salão. Gigantescas luminárias aperfeiçoavam ainda mais a decoração, e na longa mesa haviam muitos homens sentados, eles riam, conversavam, bebiam e comiam, pois na mesa havia um farto banquete, repleto de todos os tipos de comidas. Eu estava impressionado com tamanha beleza, mesmo ainda estando muito confuso com tudo o que havia acontecido. Minutos atrás eu estava em lutando uma guerra, e agora estou neste lugar sem saber o que está acontecendo.
– Bem vindo! – exclamou uma voz atrás de mim.
Olhei para trás e vi um velho de longa barba branca, cabelos cumpridos cinzentos que passavam dos ombros, olhos azuis e uma cicatriz na bochecha esquerda. Sem dúvida era ele, meu querido avô! Meu peito se encheu de fôlego e ânimo, dei um forte abraço nele e por um segundo esqueci-me de tudo o que estava acontecendo, só queria viver aquele momento com o homem que foi a minha inspiração a vida inteira.
– Vô, o que faz aqui? Que lugar é esse? Como você está, meu velho? – indaguei.
– Ahhh… Como eu senti sua falta vô, como é bom te ver!
– Eu também senti a sua falta e estava torcendo para que você viesse para cá, meu neto!
–Mas que lugar é esse, afinal? Como vim parar aqui? Eu estava lutando uma guerra, levei uma pancada e…
– Abriu os olhos e percebeu que todos tinham sumido, e apenas uma velha apareceu? Haha… Você está em Valhalla! – exclamou o velho em uma voz alta e cheia de empolgação.
–Espera! Esse é aquele lugar do qual o senhor me falava sempre?! – fiz uma pergunta retórica.
–Sim! Hahahaha! – gargalhou o velho.
–Venha, venha, deixe-me te mostrar mais da gloriosa Valhalla – falou me abraçando pelo pescoço e me puxando para uma caminhada pelo vasto salão.
– Este é aquele lugar do qual eu sempre te falava, o lugar do qual sempre sonhei em vir e que finalmente alcancei, depois de uma longa conversa que tive com Óðinn.
– Óðinn? O Deus de quem você adorava falar?! – indaguei curioso e ansioso por uma resposta.
– Sim, esse mesmo! É uma longa história. Quer dizer… Não tão longa assim, mas enfim… Eu estava na minha casa e…
Meu avô parou, pegou dois canecos de madeira enormes da mesa, os encheu com um líquido dourado, um líquido que brilhava, e em seguida me deu um dos canecos.
– Beba! – disse – Você vai gostar!
Olhei para dentro do copo e parecia ouro derretido com uma mistura de poeira estelar, a aparência estava incrível. Bebi! Nunca havia provado bebida tão saborosa em toda a minha vida.
– Boa não é mesmo?! Isso é hidromel, a bebida dos Deuses! – Disse o velho olhando fixamente para mim e sorrindo.
Continuamos andando pelo salão que parecia não ter fim enquanto meu avô me contava a história de como havia parado ali…
– Bom… Deixe-me continuar com a história… Eu estava à beira da morte, a velhice havia chego, provavelmente eu não teria muito tempo de vida, sem contar os problemas de saúde que havia desenvolvido com a velhice. Não havia mais chance para mim, eu iria morrer logo, logo e, inclusive acho que você se lembra, mesmo sendo tão novo.
– Sim eu me lembro, foi um choque a sua morte para mim, meu velho – interrompi dizendo.
– Então… – continuou ele – A morte estava chegando para mim e eu sempre tive a vontade de conhecer esse lugar, era o meu sonho desde jovem, quando meu pai me contava as histórias dos Deuses e deste grande salão tão almejado pelos nossos ancestrais, eu queria me sentar a essa mesa, cear com meus irmãos, o desejo do meu coração esteve aqui desde muito tempo. Então em um dia frio, levantei-me cedo como de costume, muito cansado, acabado pelos anos, fui até o bosque que tinha perto de minha casa, aquele onde você adorava brincar quando criança e decidi conversar com Óðinn, clamei ao Pai de todos que me aceitasse em Valhalla na hora de minha morte, que meu corpo poderia estar velho, mas o meu espírito estava tão forte quanto o de um guerreiro em seu auge. Terminando de falar isso, eis que começa a surgir a silhueta de um homem na terra, ele estava saindo do chão, era um homem de barro e então se formou a imagem de um homem velho e forte, caolho, e naquele momento cai de joelhos, pois tal presença havia me pego de surpresa, eu não esperava tamanha aparição e tal honra, meus olhos enxergaram com clareza, era Ele, Óðinn, que havia descido de Hliðskjálf, para me visitar. Ele disse para eu me levantar, jogou uma espada em minha frente, espada da qual carrego comigo agora, e me mandou pegá-la e lutar com ele ali mesmo, disse que daria apenas uma chance, e que eu teria de provar ser digno de Valhalla. Eu não consegui nem chegar perto dele, a cada golpe desferido, ele defendia, ele apenas defendia, não me atacava. Permaneci ali durante horas e horas, até meu corpo velho não aguentar mais, então ele, segurando sua lança, me disse: “você provou que mesmo o corpo sendo fraco, o espírito pode ser forte, por isso eu aceito o seu pedido, hoje mesmo tu te assentará como um de meus soldados na grande Valhalla”. Dito isso, ele enfiou a sua lança direto em meu coração, cai ao chão, sorrindo, pois sabia o que me aguardava… Agora estou aqui, lhe contando essa história. Sinto-me como um jovem guerreiro, posso parecer velho, mas sou tão forte quanto você e todos os nossos irmãos aqui dentro.
Depois de uma longa história e de olhar todo aquele lugar, especialmente de ter a presença de meu avô ali naquela hora, percebi que eu havia realmente morrido, mas que apesar de tudo, eu estava feliz, estava bem!
–Esse é o lugar onde iremos ficar, Einar. E… eu sei, você deve ter muitas perguntas meu neto, mas por agora vamos apenas festej…
Antes que ele terminasse de falar, o toque de uma forte trombeta soou pelos salões e logo em seguida uma voz forte, com a potência de um trovão ecoou pelo salão, e todos escutaram com muita atenção.
–Eis que é chagada a hora, meus soldados. O momento pelo qual todos nós aguardávamos! Peguem suas armas, peguem seus escudos e sintam o ardor da batalha que nos espera. Tenham coragem acima de tudo e lutem com honra e toda a força que conseguirem aplacar.                                                                                                                                      Em seguida, todos bradaram um grito de guerra que fez o salão inteiro tremer. Juntos, cada homem que se sentava diante da grande mesa, corre em direção às portas de ouro, com sorrisos estampados em seus rostos e os seus olhos brilhavam pela ansiedade da tal batalha.
– Batalha? O que é isso? – pergunto ao meu avô que, parado, fitava a espada que havia desembainhado da cintura. Espada essa, que ganhara de Óðinn em seu desafio contra o Deus Guerreiro.
Ele olhou para mim, sorrindo, e com toda a determinação do mundo em seus olhos colocou a mão direita sobre o meu ombro e disse essas palavras, enquanto todos se moviam para as grandes portas de ouro:
– Isso, meu jovem?! É a luta de nossos destinos, o fim e o começo, a destruição para a restauração, o final dos dias, mas a aurora de um novo tempo. Isto é o Ragnarökkr!

Wesley San Peixoto

 

Sono Mortal

“Deito em minha cama depois de um longo dia de trabalho, olho no relógio da cabeceira, é 00:00. O sono chega como uma pancada de carro, rápida e mortal, sinto o meu corpo na cama, meus olhos estão abertos, mas não consigo mover os braços e nem as pernas, a única coisa que se move são os olhos, dos quais desesperadamente agito de um lado para outro, com a esperança de que a força aplicada seja o suficiente pra colocar meu corpo fora do estado de transe.

Depois de minutos de desgaste, finalmente aceitei o fato de que eu não conseguiria sair da paralisia em que me encontrara, apenas descansei, e esperei, com a esperança de que aquilo logo fosse embora.
Me assustei quanto notei que pelo reflexo do vidro a minha frente, vi que o relógio digital marcava 00:02, porque parecia que haviam se passado horas.

Logo em seguida senti uma presença, havia alguém do meu lado direito, o que me fez ficar desesperado novamente, meus olhos doíam ao tentar enxergar quem estava naquele quarto escuro comigo, me senti apavorado com a presença, pois eu morava sozinho, não tinha lógica ter alguém ali naquele quarto além de mim. Pensei então: será apenas coisa da minha mente? Ou será um ladrão? Ou até talvez um daqueles assassinos em série que entra na casa das pessoas no meio das noite para esquarteja-las por diversão? Meu coração estava quase saindo pela boca, eu estava horrorizado, a dúvida da presença estava destruindo minha sanidade aos poucos…
Passos ecoaram, quebrando o silêncio em que se encontrava o quarto. Meus olhos se mexiam muito rápido em todos os cantos possíveis, a procura do invasor. No canto direito, aos pés da cama, a silhueta de um homem começava a surgir, eu gritei, gritei com todas as minhas forças, mas nenhum som saia, o desespero era tamanho que se saísse algum som, acordaria todos os meus vizinhos de tamanho pavor que iria ser propagado pelas cordas vocais. Entrei em desespero de ver aquele homem andando ao lado da minha cama, ele se movia vagarosamente, como se estivesse apreciando cada segundo daquela situação angustiante. Ele se posicionou a frente da minha cama, e ficou parado, eu conseguia ver apenas uma sombra. Aquele momento parecia eterno, com a figura parada em minha frente, até que então, a criatura abriu os olhos, e eles eram inteiramente vermelhos como se todo o seu olho estivesse imerso em sangue, a sua imagem havia se tornado ainda mais aterrorizante após aquela cena. Tentei fechar meus olhos, mas eles continuavam abertos, não importava a força que tentasse desesperadamente aplicar sobre eles. Então como um passe de mágica acordei, desesperado, suando, ofegante, olhei por todos os lados do quarto e nada, o homem havia desaparecido. Me toquei então que tive apenas um pesadelo, nada mais, não havia nem saído da cama, joguei meu corpo pra trás e me deitei novamente, olhando fixamente ao teto do quarto escuro, e tentando restaurar minha sanidade, dizendo inconscientemente de que aquilo era apenas um pesadelo. Pelo menos era nisso que eu queria acreditar.
Fecho os olhos, viro minha cabeça para o lado esquerdo da cama, onde me sentia melhor, após a aparição do homem ao lado direito durante o pesadelo. Estou quase caindo no sono, mas, de repente escuto do outro lado da cama, um barulho nitidamente audível, como se fossem mãos se arrastando sobre o lençol. Naquela hora eu abri o olho, mas fiquei parado, e não me virei, meus olhos estavam arregalados, aquele som havia enregelado minha alma, havia destruído com uma pancada meu muro de sanidade do qual eu estava construindo aos poucos novamente, mas eu tinha que me virar, minha curiosidade falou mais alto que o medo. Me virei devagar, e a cada milésimo de segundo, desejei estar errado sobre minha intuição naquele momento. Quando percebi a silhueta de uma cabeça à borda da minha cama, virei rápido, com um sentido natural de reflexo. Tudo ocorreu em um segundo. Era o homem do pesadelo, seus olhos estavam arregalados, seus olhos inteiramente vermelhos fixavam-se em mim, sua face estava preta, não conseguia ver nada além de seus olhos e seus… seus horríveis dentes serrados, que se estendiam de um canto da orelha a outro, o desgraçado estava sorrindo pra mim. Seu sorriso era macabro, como o sorriso de um maníaco prestes a arrancar as vísceras de sua vítima. Ele abriu a boca, e gritou.
Eu acordei assustado, no trabalho, no meu escritório, desorientado, com alguns colegas meus batendo na minha porta e debochando de mim.
Eu fiquei confuso naquele momento, não entendi muito bem o que havia acontecido. Eu havia cochilado, no trabalho, e sonhado que estava dormindo em casa.?!! Tudo isso me pareceu muito confuso! E aquele grito daquela criatura, se recusava a deixar a minha mente, era um grito profundo, que parecia que havia destroçado e arrancado minha alma para fora do meu corpo.

Então decidi escrever meu relato neste blog de casos paranormais. Não sei se tem alguém aí que possa me ajudar. Depois desse episódio eu não consegui mais dormir, aquele maldito grito… E a imagem daqueles… olhos… daquele sorriso macabro não me deixam mais em paz.
Se alguém puder me ajudar, eu ficaria agradecido.
Esse é meu e-mail: edylohan@igmail.com”

-Senhor, terminei de analisar o texto do rapaz. O que faço agora?
-Coloque na gaveta de “casos inacabados” ao seu lado. Mas.. Conseguiu encontrar algo no relato?
-Não senhor. Nada que fosse… “normal”.
-Como assim?- indagou o delegado.
– Bom… Dá pra perceber claramente que ele estava muito assustado com o fato que havia acontecido. Mas esse “homem” que ele relata… Eu não entendo! Tudo parecia ser fruto da imaginação dele, mas isso o perturbava tanto que começou a tirar seu sono, e sem mais nem menos seu corpo ser achado em seu próprio quarto, deitado em sua cama, sem os olhos, e com um largo corte na boca, como se fosse um enorme sorriso, parecido com alguns traços do tal “homem” que ele descreve. Eu não entendo delegado…
– A mente de uma pessoa rumo a loucura é dificilmente entendida meu jovem.- Disse o delegado ao novo investigador.
-Tudo bem, mas… eu acredito delegado que… muitas coisas das quais alegamos ser loucura, fruto de nossa imaginação, são na verdade a realidade, que nós seres humanos queremos acreditar que seja loucura. Porque seria pesado demais para a nossa ínfima consciência e demasiadamente insano, decretar a existência de tais coisas…

Wesley San Peixoto

Cor da Minha Vida

E o que posso assim dizer,
De tal moça que conheci,
Linda e formosa,
Se não a mais linda que já vi.

Apareceu como uma dádiva em minha vida,
Para me trazer cor,
Tornou meu preto e branco,
Na cor viva do amor.

Menina de grandes talentos,
Escreveu em mim poesias,
Não com palavras em um papel,
Mas trazendo ao meu coração alegrias.

Seu olhar me fascina,
O seu toque me acalma,
Os seus lábios tocam mais que a carne,
Me tocam a alma.

Me sinto bem ao teu lado,
Você me faz sorrir, me faz viver,
Meu coração eu entrego a ti,
Meu amor, meu sonho, meu bem querer.

Wesley San Peixoto

Esse poema que fiz foi inspirado na minha namorada, e por ser especial, decidi que esse seria o primeiro post de poema, para abrir com chave de ouro! haha

Te amo Sara!!!

Menina do Ônibus

A noite cai, deito em minha cama, e mais uma vez não consigo tirá-la da mente, não consigo tirar a imagem daqueles lindos olhos, olhos castanhos escuros, iguais aos meus, mas olhos dos quais vejo sofrimento, olhos dos quais já viram muitas coisas ruins. Mas nada disso tirou o seu olhar sereno, de moça, de menina.

Primeiro dia de trabalho, ainda meio confuso com tudo. Saí de casa as pressas, acordei atrasado, infelizmente. Contudo, consegui chegar a tempo. E lá se vai meu primeiro dia, agora é 14:20, estou indo pra casa, as coisas não foram tranquilas, tudo saiu do jeito que eu esperava que fosse.

Cansado e de saco cheio, me sento no primeiro banco livre do ônibus, literalmente o primeiro banco, achei que seria mais confortável, afinal era somente eu na parte da frente do ônibus, e eu… não sou muito social, e por isso como de costume, sempre escutando música, e o som que havia escolhido aquele dia foi  “Heros” do cantor “David Bowie”, que infelizmente viria a falecer meses depois. Estava disperso de tudo em volta, olhando pela janela, vendo as pessoas que andavam na calçada e tentado imaginar o que pensavam, sentiam, ou o que fazia com que suas vidas seguissem em frente, seriam objetivos profissionais, espiritualidade, amor pela família ou pelos amigos talvez? Isso também me fez pensar no meu objetivo de vida, se algum dia eu entraria na faculdade, no curso de psicologia para ser mais específico, do qual sempre tive vontade. Me perco em pensamento, distraído, levo um susto quando a porta do ônibus se abre, como de costume, para os passageiros entrarem, e de repente vejo a silhueta de uma moça, que devagar sobe os degraus da entrada, em seguida dá um lindo sorriso ao motorista, e lhe deseja uma “boa tarde”, seu olhos eram castanhos, seu cabelo castanho escuro era curto, e ia até a altura dos ombros, ela era a menina mais linda que eu havia visto até aquele momento da minha vida, parecia até cena de filme de romance adolescente, gênero do qual nunca tive apreço. Ela logo se assenta no banco atrás do meu, e então pelo reflexo do vidro que estava a minha frente, eu percebi que o olhar daquela moça era diferente, não sei como, mas seu olhar era diferente de tudo o que eu havia visto até aquele momento, e eu maravilhado com tão lindo olhar, acabo me perdendo em seus olhos e não vejo que ela também me olhava, quando percebo, viro rapidamente a cabeça para a janela e disfarço, mas ela percebe e dá um pequeno sorriso, o que me deixou ainda mais vermelho naquele momento de constrangimento. Mas enfim, algo havia me chamado a atenção naquele simples olhar.

O ônibus enfim chega ao terminal e nós dois desembarcamos no mesmo lugar, mas eu seguia para casa a pé, enquanto ela sentava no terceiro banco ao lado direto do ônibus que havia nos deixado lá, para enfim pegar outro e ir ao trabalho. E como eu sei que ela ia para o trabalho? Porque ela vestia uma camiseta azul, igual a minha, mas de marca de empresas diferentes, e acho que ela deveria trabalhar como vendedora ou na área administrativa, pois ela sempre estava bem vestida, ela sempre estava linda.

Acordo no dia seguinte, é 6:30, estou exausto, pareço um zumbi, depois de ficar a noite inteira escrevendo, aliás, um dos meus “hobbies” é escrever.

O segundo dia de trabalho foi normal, e é claro, não é o que gosto de fazer, afinal pretendo cursar psicologia e trabalho em uma metalúrgica, mas… vivemos em um mundo que gira em torno do capital, então precisamos trabalhar.

Novamente rumo a minha casa, espero o ônibus, ele chega, entro, e me sento novamente na primeira cadeira, e mais uma vez aquela menina entra minutos depois. E a cada dia que passava e eu a via, algo me tocava por dentro, do qual me inspirava.

Os dias se passavam e eu sempre a via no final do dia, e eu sentia dentro de mim de que precisava falar com ela, nem que fosse um “com licença moça!” ou um “ bom dia!”.

Novos dias vieram, e ela ficou uma semana sem vim, o que achei estranho, e até meio deprimente, pois aquela era a única hora boa do meu dia, no qual ao som de uma boa música, eu a via.

E então, quando foi em uma quarta-feira, ela finalmente apareceu, mas algo nela me deixou magoado, ela tinha algumas marcas no braço, como se fossem marcas de batidas feitas por algum instrumento cortante, e um pequeno corte nos lábios, e naquela hora, eu havia percebido que de fato o olhar das pessoas não mentem, e ela realmente passava por algo ruim, e no meu medo de incomodá-la em um momento como aquele, com uma pitada de tristeza, eu nada falei a ela. Mas sim, eu gostaria de ter perguntado a ela o que teria acontecido, ter dado um pedaço de mim naquela hora para ao menos confortá-la, mas não fiz nada, nada…

Os dias se passaram, havia feito um mês de trabalho já, e parece que… por eu ter pego todos os dias o mesmo  ônibus e ter reparado sempre naquela linda moça, eu havia construído uma história com ela. Até parece que éramos velhos amigos só pela troca de olhares. Os hematomas estavam desaparecendo, o que me fazia ficar mais confortável, imagina ela então?!

Mais um mês de trabalho passara, completei 2 meses, 2 meses se encontrando com ela naquele mesmo ônibus, naquele mesmo horário e ponto em que ele passava pegá-la. Minutos antes do ônibus chegar na parada em que ela o esperava para ir ao trabalho, eu pensei que aquele seria o dia para finalmente conversar com ela, eu finalmente conversaria com a menina cujo o olhar me apaixonara, a menina que me visitava quase todas as noites em meus sonhos acordado, hoje seria o dia. Então o ônibus passa em seu ponto, mas infelizmente ela não estava… a menina não estava lá parada como sempre. Pensei então, pode ser que ela falte alguns dias como ela fez à um mês atrás, ou ela tenha entrado de férias quem sabe…

Os dias se passaram, nada da menina de lindo olhar aparecer no seu respectivo ponto, e aí comecei a me perguntar o que havia acontecido, para ela faltar tantos dias assim, minha mente começou a desenvolver diversas teorias do fato.

Foi numa segunda feira então, que fui ao trabalho, enfim, a mesma rotina de sempre, e naquele dia ela não apareceu novamente, justo quando eu havia me decidido falar com ela. Cheguei em casa meio deprimido, esquentei o meu almoço como habitual, e me sentei no sofá pra assistir televisão, como de costume, e então eu vi, a foto dela em um jornal na televisão: “corpo de garota de 19 anos é encontrado enforcada em seu próprio quarto, a polícia científica concluiu a investigação apurada no local e foi constatado que a causa da morte foi por suicídio, segundo informações dos… ”. O meu prato foi ao chão, em um som seco, meus ouvidos se desligaram para tudo que estava em volta, enquanto meus olhos choravam e ao mesmo tempo encaravam a foto dela na televisão e então me dei conta de que aquela era a realidade e que não havia forma de escapar. Eu fui tão estúpido… se… se ao menos eu tivesse dito algo a ela… se ao menos eu tivesse sentado do seu lado, dito um bom dia seguido de um sorriso… se ao menos eu tivesse me aproximado dela e perguntado como ela estava, talvez nada disso tivesse acontecido.

A noite chega, e com ela um vazio imenso, uma dor profunda, choro desesperadamente, mas abafando o choro no travesseiro para não acordar meus pais, meu mundo mais uma vez, desaba em lágrimas…

Anos se passaram, estou na minha própria casa, tenho uma família agora, uma ótima esposa, dois lindos filhos e tenho meu escritório de psicologia.

Mas a noite cai, deito em minha cama, e mais uma vez não consigo tira-lá da mente, não consigo tirar a imagem daqueles lindos olhos, olhos castanhos escuros. Seu olhar sempre vai estar em minha memória, seu olhar sereno, de moça, de menina.

– “Boa noite menina do ônibus!”

                      Wesley San Peixoto